O Caminho do Sertão

17 de abril de 2018

AS TRÊS CARTAS EXTRAVIADAS – “VALE SEIS E TOMA NOVE!”. RIOBALDO NO GRANDE SERTÃO:VEREDAS

 

O título acima, ao se referir a três cartas e ao extravio que pode remeter ao blefe na expressão “vale seis, toma nove!”, evoca o tradicional jogo de “truco” muito popular no sertão mineiro, nos gerais dos vales dos rios Urucuia e Carinhanha, por onde passa o caminho do Sertão – de Sagarana ao Grande Sertão: Veredas . O blefe ou a burla que fundamenta o jogo de truco aponta para o extravio como atitude ante a indiscernibilidade do real. Blefe/burla/extravio aqui são tomados como desvio, fuga, evasão possível ou virtual ante informações que caracterizam o real (a composição das cartas em posse de cada jogador), as quais não são acessíveis, a priori – mas só na medida em que o jogo é jogado – ao conjunto dos jogadores.

Como é de praxe, no jogo do “truco”, uma vez embaralhadas as cartas e distribuídas três delas a cada um dos jogadores, instala-se um jogo de dissimulações, astúcias e ardis, num ambiente de acaso, de incerteza e de faz-de-conta, que visam a construir, manipular, ou a criar simbolicamente significados e significações que poderão (ou não) burlar o natural vir-a-ser do que será o real. O virtual/possível estará sempre presente no jogo do “truco”, uma vez que limitações ou potências conjunturais nem sempre prefiguram ou definem de antemão o resultado. Diríamos que no “truco” o lúdico joga o tempo todo com o real – numa relação de enfrentamento, de fuga ou de suspensão, na tentativa de distraí-lo, iludi-lo, manipulá-lo, oferecendo a possibilidade de ampliar, ao máximo possível, a perspectiva de cada jogador permanecer vivo no jogo.

Segundo Rubem Alves, a linguagem se parece com o jogo de “truco”, sendo a poesia e a literatura a arte de burlar as regras da linguagem e de se aproximar do movente mundo real. Isto está profusamente demonstrado na obra do grande escritor mineiro João Guimarães Rosa e, de forma exemplar, no clássico Grande Sertão: Veredas. Daqui passaríamos para uma outra interpretação do título abordando as três cartas extraviadas, a partir da carta que   Nhorinhá envia a Riobaldo, carta que tem importante papel na estruturação do já citado romance do Rosa; mas, antes, vamos dar um passeio pela poesia e nos fortalecermos um pouco mais para adentrar ”o mundo fantasmo” do Sertão roseano e ir além.

Quando nos referimos às cartas, extraviadas ou não, trucadas ou não, estamos no campo da semiologia, do imaginário e da simbologia, da fala, da escrita, da literatura, da linguagem, do humano, numa palavra – da poesia – e por ela, daremos meia volta! E beberemos das águas poéticas que fluem, em citações livres, no e do texto “De Volta à poesia” de Caio Meira, que abre a coletânea “Arte: Corpo, mundo e terra”, organizado por Manuel Antônio de Castro:

Uma pergunta crucial que hoje se pode fazer à literatura (a todos os que, direta ao indiretamente, lidam com a língua, com o texto literário) é a seguinte: o que a arte poética, em qualquer de suas modalidades, tem a dizer sobre o mundo? A proposta é partir da arte para abordar o mundo, para pensar o mundo e ainda devolver ao poético, no sentido mais fundamental desse termo, a capacidade de participar do eterno processo de deciframento dos mistérios do mundo.

As obras artísticas, literárias ou de ficção têm a potência de mostrar o mundo em suas dimensões mais complexas: o entrelaçamento de paixões, medos e desafios que compõem o nosso destino, os atos dos homens no limite estreito entre grandiosidade e mesquinhez.

A cisão que lega para a ciência o controle e a autoridade sobre o real e deixa para a arte a imaginação – o mundo imaginário – cria um abismo e estabelece o desafio da transposição tendo como uma de suas consequências mais radicais,  (…) o fato de que o poeta passa a ter uma posição estrangeira relativamente àquilo de que fala, distinguindo a sua relação com o desconhecido, com o totalmente outro da cultura.(Cobra-se do poeta originalidade ao mesmo tempo em que ele está atuando no campo dos sonhos possíveis, diante das probabilidades abertas para o poeta sonhar o que vai ser real! Assim penetramos no território do sentido).

Por vários séculos antes de Sócrates o poeta foi figura fundamental na educação do cidadão, em especial dos guerreiros. O canto dos aedos era responsável pela formação espiritual, pela constituição do caráter e do ânimo de muitos soldados e generais (…), para alcançar a glória (…) e não ser esquecido, ser cantado pelo poeta. (…) E não é assim até hoje? Mesmo o mais contemporâneo dos indivíduos, plugado, conectado, bombardeado, com livre acesso a uma quantidade inimaginável de informação, de imagens, de sons, de relatos, mesmo esse indivíduo não escapa, das formações discursivas que se interpõem entre ele e o mundo em que vive. (…) O que se quer destacar aqui é que há uma dimensão literária na base da constituição do que chamamos realidade, pois o contato com o real sempre será mediado por narrativas, formações discursivas, ideológicas, enfim, pela linguagem em sua espessura complexa.

O mundo literário, assim, nunca deixou de compor o mundo tal como o percebemos, tal como ele se apresenta, mesmo em suas formas mais aparentemente “objetivas”. Ainda somos formados, sem o notar, pelos poetas, por Machado, por Rosa, por Clarice, mas também por Homero, por Pessoa, enfim, pelas narrativas incrustadas de forma definitiva na linguagem que nos constitui como seres humanos. Por isso o poético, (…) e o convite é aberto a todos, (…) tem o que dizer sobre o mundo, pois, de fato, jamais para de dizê-lo; a poesia nunca parou de dizer o mundo, de reinventá-lo de recriá-lo. Precisamos ter de volta a capacidade de escutar a poesia em sua dimensão formadora, compositora, determinante de destinos, caminhos, formas, vidas; voltar a escutar a poesia criando e recriando o mundo – esse mundo – esse corpo, essa terra (2009: pgs 7 a 10)

Apesar de longa, a citação acima, contextualiza bem o território aonde nos moveremos e nos habilita a transitar, curiosa e poeticamente, com liberdade investigativa e criativa, por entre as brumas, as neblinas, hiatos e vãos que habitam o sertão do conhecimento. A todos desejamos uma boa vereda…

A carta de Nhorinhá – o amor que chegou tarde…

Segundo Clara Rowland (2011), no magistral livro “A forma do meio”, no Grande Sertão: Veredas, a carta de Nhorinhá e a própria personagem se fundem sob a noção de extravio, de desvio, de alternativa, de salvação por fim, à fusão do enredo com o destino que leva à morte de Diadorim. “Nhorinhá como desvio, como terceira possibilidade, apresenta-se no texto como última ocasião proposta para evitar o desfecho, para evitar a conclusão. E mais do que a resposta a um amor tardiamente revelado, o casamento com a prostituta é apresentado como a solução para a linha fatal da ação que conduzirá a morte de Diadorim: “Mas se eu tivesse permanecido no São Josezinho e deixado por feliz a chefia em que eu era o Urutu Branco, quantas coisas terríveis o vento-das-nuvens havia de desmanchar, para não sucederem?”* A carta extraviada e a própria ”Nhorinhá como figura daquilo que o conhecimento poderia ter evitado”, explicitam – “na tensão entre conhecimento e ignorância”, na investigação crítica e autocrítica sobre o erro e a errância que pautam a obra – “a precariedade da travessia humana como marcada por um conhecimento sempre tardio”,  só possível de ser alcançado, recebido, acessado e assimilado, a posteriori,  como afirma o neurobiólogo/cognitivista/filósofo natural Maturana em um dos seus aforismos mais conhecidos: “a distinção entre ilusão e verdade só é possível a posteriori”(aqui se evidencia a dimensão do tempo diferido e intervalar – hiato entre emissão e recepção – inscrita em toda carta como legibilidade tardia).

A consciência irônica, plenamente disposta na linguagem, que se debate entre a reconstrução de um enredo orientado para a morte e o esforço desesperado para a retroação ganha corpo na figura de Nhorinhá, possível desvio no percurso, tarde demais transfigurada em possibilidade devido ao atraso da referida carta  (“Em certo momento, se o caminho demudasse – se o que aconteceu não tivesse acontecido? Como havia de ter sido a ser?)* (Rowland, 2011).

Apresentamos a seguir o argumento construído para justificar o uso da carta no processo do Editao do Caminho, pois ele, apesar de repetir o aforismo, dialoga com nossa investigação: validar a participação no Editao via carta postal carrega o propósito de oportunizar àquele(a)s que se inscreverem a experiência de participar- como observadores – de uma situação de legibilidade tardia –  o tempo lento, diferido, atrasado (entre a postagem e a entrega da carta) – frente ao “tempo real”, contemporâneo.

Ao utilizar o instrumento da carta, gostaríamos de facilitar a compreensão de que o nosso processo cognitivo se assemelha ao trânsito lento e diferido dela mesma. Maturana(1998) afirma que um determinado observador não pode distinguir, na experiência, entre ilusão e verdade, só sendo possível fazê-lo a posteriori, como um comentário sobre a experiência vivida. Isso também se diz no Grande Sertão: Veredas, só a posteriori – só depois que Diadorim já estava morta é que se revela, de forma tardia, diferida e atrasada, o seu corpo de mulher. A nossa tomada de consciência da vida e do mundo carrega esse lapso temporal fundante que mostra claramente a indiscernibilidade do real enquanto se está no meio da travessia. Só sendo possível validar como ilusão ou verdade aquilo que se viveu, depois, a posteriori, rememorando, refletindo, avaliando e comentando a experiência vivida na e enquanto travessia.

Sob o signo do possível e do virtual (“Possível o que é – possível o que foi. E – mesmo – possível o que não foi.”)*, Nhorinhá, aquela que não foi, como carta que chegou tarde e que por isso problematiza a noção de tempo, atualiza e dinamiza recursivamente a tensão existencial entre leitura/releitura do mundo e a ação no mundo. Na afirmação de Riobaldo “mesmo – possível o que não foi”, reconhece-se que as virtualidades do possível estavam abertas, no passado, e permanecem abertas, no presente, sendo, sempre, mais amplas do que o que se configurou e se convencionou como sendo o Real.

Após leituras e releituras dos textos e do mundo, na tentativa de nele nos orientar, vamos aprendendo a refinar o aprendizado de todo o processo recursivo de aproximação e afastamento da fugidia realidade, adotando como naturais a incerteza e o acaso evidenciados nas flutuações de percepções, cognições, escolhas, ações, interações, retroações, erros e acertos numa verdadeira ecologia da ação[i]. Assim, compreendemos, com o Grande Sertão: Veredas, que “viver é muito perigoso”* e o que nos resta, ao nos projetarmos, individual e coletivamente como “homem humano”, em travessia, é nos enchermos de coragem, apostar no desejável e perseguir, entusiasmada e obstinadamente, a viabilização do possível, pois “quando vou para dar batalha convido meu coração”*.

Partindo de tal abordagem da carta de Nhorinhá, buscamos investigar duas outras “cartas extraviadas” do nosso tempo histórico: a carta constitucional de 1988 – a constituição cidadã e a carta de Francisco – Laudato Si – sobre o cuidado da casa comum. Numa tentativa de classificação das três “cartas extraviadas”, partimos da ideia de que a carta de Nhorinhá se inscreve numa dimensão pessoal/interpessoal – uma carta de amor de Nhorinhá para Riobaldo; a carta constitucional de 1988 se inscreve, por sua vez, numa dimensão social ou sócio-histórica – consolida e impõe regras e princípios fundamentais de autonomia, convivência, civilidade, direitos e cidadania; já a carta de Francisco aponta para uma dimensão antropológico-civilizacional – a responsabilidade humana com a preservação da sustentabilidade da vida na “terra pátria”[ii].

Sendo o tempo a noção central a ser problematizada pelo instrumento da carta enquanto suporte/veículo de uma determinada mensagem “em trânsito”, consideramos que o tempo da carta de Nhorinhá, oito anos errando de mão em mão pelo sertão, se insere no curto tempo da existência de uma identidade individual,  de uma vida humana pessoal e particular; o tempo de uma carta/constituição se projeta, com maior ou menor longevidade, no tempo das gerações, no tempo das identidades coletivas de etnias, povos e nações; por sua vez a carta de Francisco – tomado duplamente como o Santo e o atual papa, a mensagem de oito séculos atrás, do primeiro, renovada e atualizada recentemente pelo segundo – evoca o tempo lento e estendido do planeta e os componentes cósmicos/planetários da identidade humana e ainda as noções de era geológica, Gaia e Antropoceno.

A carta constitucional de 88 – sem o que comemorar na efeméride dos 30 anos

Partindo da carta de amor de Nhorinhá e das implicações cognitivas que ela carrega, analisaremos as ressonâncias possíveis do amor, da linguagem, da emoção e da percepção do que é o real na relação com a carta/constituição de 88. Para Maturana (1998), “o amor é o fundamento biológico do fenômeno social: sem amor, sem aceitação do outro ao nosso lado – como legítimo outro na relação” – que implica igualdade de direitos e reconhecimento mútuo de dignidade e liberdade, “não há socialização e sem socialização não há humanidade”. Com a definição de linguagem como “coordenações de coordenações de condutas”, o referido autor nos aproxima da questão da necessária coordenação de condutas e comportamentos sociais definidos, consagrados e protegidos pela carta/constituição para orientar a convivência pacífica, harmônica e justa – numa palavra, civilizada – de determinado povo ou nação. Devido à sua importância conceitual, retomamos a citação anterior quanto ao real “a distinção entre ilusão e verdade só é possível a posteriori” e a citação que se segue sobre a emoção para avançar em nossa reflexão:

Quer dizer, ao nos declararmos seres racionais vivemos uma cultura que desvaloriza as emoções, e não vemos o entrelaçamento cotidiano entre razão e emoção, que constitui nosso viver humano, e não nos damos conta de que todo sistema racional tem um fundamento emocional. As emoções não são o que correntemente chamamos de sentimento. Do ponto de vista biológico, o que conotamos quando falamos de emoções são disposições corporais dinâmicas que definem os diferentes domínios de ação em que nos movemos. Quando mudamos de emoção, mudamos de domínio de ação. Na verdade, todos sabemos isso na práxis da vida cotidiana, mas o negamos porque insistimos que o que define nossas condutas como humanas é elas serem racionais. Ao mesmo tempo todos sabemos que, quando estamos sob determinada emoção, há coisas que podemos fazer e coisas que não podemos fazer, e que aceitamos como válidos certos argumentos que não aceitaríamos sob outra emoção (Maturana, 1998).

Trabalhando com tais balizadores, acreditamos que a constituição de 88 pode ser considerada uma carta de amor no âmbito social, uma vez que o regramento legal nela proposto busca promover e assegurar a dignidade da pessoa humana, seus direitos fundamentais, o convívio democrático, cidadão e civilizado. Todos aqueles que atuam no domínio de ação de defesa da constituição e da aplicação dos seus princípios e garantias estão no âmbito das emoções solidárias e fraternas sem as quais não é possível o humano.

Para Pedro Serrano, considerado um dos maiores constitucionalistas do país, no Brasil, o que vem, sistematicamente, extraviando a constituição do seu papel normativo e ordenador, agredindo seus princípios e direitos fundamentais e fazendo letra morta da lei, é a massificação e viralização de mecanismos linguísticos, semióticos e cognitivos que destilam ódio, ressentimento e medo como atmosfera psíquica dominante, pelos quais se promove o esvaziamento do sentido do direito, abrindo, assim, espaço à tirania – que vai se estabelecendo preservando a roupagem democrática e dando a impressão de que as instituições estão funcionando – mas impondo, na prática, medidas de exceção. Devido a essa dissimulação, o autoritarismo que toma corpo na sociedade vai se mostrando mais difícil de combater e, portanto, mais evoluído, mais eficaz e mais tirânico.

Recuperando a questão da virtualidade já apontada pela carta de Nhorinhá e para melhor compreender a carta/constituição extraviada, aprofundaremos nossa análise adotando os referenciais das pesquisas e interpretações realizadas ao longo dos últimos anos pelo jornalista/semioticista Wilson Ferreira do blog Cinegnose.

Inicialmente, é conveniente retomar o termo “virtual” e perceber que o conceito está atualmente associado àquilo que tem existência aparente e não propriamente real ou física. O termo é bastante corrente no âmbito da informática e da tecnologia para fazer referência à realidade construída através de sistemas ou formatos digitais. Já no âmbito da comunicação, os ambientes ditos virtuais estão associados à comunicação instantânea ou em “tempo real”.

Ferreira afirma em seu blog que a hipótese da virtualidade do real, essência do filme “Matrix”, é muito discutida e ainda pouco compreendida e que talvez tal essência já esteja presente no nosso dia a dia mais do que imaginamos. Para apoiar sua visão, ele afirma que, sendo correta a hipótese do agendamento midiático – estratégica e ideologicamente orientados – (a mídia agendaria e induziria a percepção social, definindo o que e a partir de que pressupostos as pessoas vão pensar), o que chamamos de “realidade” pode ser um constructo a partir de percepções e cognições fornecidas por um ambiente midiático em que vivemos. A percepção coletiva moldada subliminarmente com base em pesquisas que perscrutam as profundezas do imaginário, do simbólico, do psiquismo e do inconsciente social, enredam, pois, a sociedade em véus da ilusão criados e sustentados por algoritmos computacionais, que atuam como demiurgos a nos escravizar.

A mídia convencional, a internet e as redes sociais são não apenas mecanismos de manipulação e dissimulação da realidade, mas são, principalmente, mecanismos de alterar a nossa percepção acerca do mundo. Tal ambiente, ou atmosfera, é propícia à disseminação do clima de opinião ou onda de afetos que predispõem, atravessam e, mais do que mobilizam, “carregam” inconscientemente as pessoas – e às profecias auto realizáveis –“onde criam-se primeiro as condições para o sucesso esperado ou temido, e, nesse sentido, termina por criar a realidade,(…)embaralham o verdadeiro e o falso, onde a situação criada cria junto a verdade consequente” (3).

O clima de opinião e as profecias autorrealizáveis são, ainda segundo Ferreira, as principais bombas semióticas/cognitivas que mostram como a comunicação midiática há muito tempo deixou o campo da propaganda tradicional (repetição, persuasão, reforço) para ingressar no campo sofisticado da cognição – mais do que discursos e conteúdos informativos, construir percepções por meio do CAOs (Consonâncias, Acumulações e Onipresenças das informações).

Problematizando um pouco mais a leitura realizada pelo semioticista Ferreira, trazemos uma citação do livro “Ficção Cética” de Bernardo (2004) acerca do filme “A Matrix”: “… não há novidade: Matrix é o novo nome daquilo que Lacan descrevia como “o grande Outro”, ou seja, da ordem simbólica virtual que, como uma rede, estrutura a realidade para nós. O “grande Outro” é o apelido da alienação constitutiva do sujeito na ordem simbólica: o sujeito não fala, mas é falado pelo que supõe, ingenuamente, ser seu próprio discurso. Porque há o “grande Outro”, o sujeito nunca chega a dominar plenamente os efeitos de suas falas e de seus atos.

Os dilemas do simulacro não nasceram apenas do modo de produção capitalista, insistem conosco no mínimo desde a caverna de Platão. Desde sempre, há simulacro porque, ainda segundo Slavoj, se a totalidade da realidade não nos é acessível, ela só pode ser inconsistente – “e a função de toda Matriz simbólica é esconder essa inconsistência” [em Irwin:265] (3). Segundo tal análise, esta é, desde sempre, a questão da linguagem, da literatura, da ficção e da própria percepção humana, questão que é amplificada até assumir ares distópicos nos nossos tempos pós-modernos, noosféricos e da vida imersa na “teleinfocomputrônica”.

Considerando todas as contribuições acima elencadas, inferimos que a constituição de 88 pode ser classificada como uma “carta extraviada”. Para tanto, partimos das evidências da nova estratégia semiótica de engenharia de opinião pública, a dita guerra híbrida em curso no Brasil, onde há um claro movimento de afirmação de uma narrativa moralista, autoritária, egoísta, individualista e concentradora de renda que busca mercantilizar todas as relações humanas. Tal ofensiva,  além de esvaziar o sentido do direito, como já foi apontado, busca ainda esgotar os sentidos da cooperação, da solidariedade, da fraternidade, da compaixão e do amor, fragmentando e dispersando a capacidade de reconhecer a legitimidade do outro, do diferente, das minorias e mesmo da maioria. Daí a insensatez da escalada do ódio, da agressão, da violência e da morte em curso no país e que já se traduz em desemprego, fome, miséria, desilusão e abandono crescentes para milhões de brasileiros.

Serrano afirma ainda, que, nesse contexto, o amor passa a ser considerado um sentimento revolucionário por não poder ser traduzido em vantagens ou ganhos egoístas, individuais ou pecuniários e por significar uma espécie de entrega total pelo outro, em que o ser humano coloca a própria vida em risco para proteger o bem-estar, a segurança e a felicidade do outro.

Maturana(1998), ao afirmar o social como o ambiente da cooperação onde imperam as relações de cuidado, atenção e amor (em contraposição ao ambiente dominado por relações anti-sociais de competição, dominação e controle) assentados sobre o reconhecimento da legitimidade do outro na relação, referenda Serrano Neves e estimula a todos aqueles que hoje, nas manifestações virtuais nas redes sociais ou nas manifestações presenciais e ainda nas atitudes e comportamentos do cotidiano, atuam e resistem de maneira civilizada e democrática na defesa e na promoção de um mundo mais justo e digno para todos. São as evidências alvissareiras de que o exercício engajado das emoções solidárias e democráticas por parte substantiva do povo brasileiro auxiliará em uma correta leitura da nossa realidade e poderá, espera-se que num breve espaço de tempo, corrigir o extravio da carta constitucional de 88.

Admitindo-se que narrar é criar sentido, que a batalha da história é a batalha pelo sentido e pela narrativa e que a democracia também está sujeita à linguagem e à interpretação, aqui se apresenta o aprendizado possível a partir da reflexão derivada da carta de Nhorinhá. No romance, a leitura tardia da carta impediu a possibilidade de uma escolha outra, por parte de Riobaldo, que pudesse ter evitado a morte de Diadorim. No caso do Brasil dos dias atuais, apesar do “atraso” na percepção dos reais interesses que se escondem e se dissimulam nos discursos que vêm do mundo e da mídia “oficiais”, as “fichas” começam a cair indicando a possibilidade de uma repactuação dos sentidos – para além do medo, do ressentimento e do ódio – e de uma correção de rumo que possa preservar da morte a nossa agredida constituição e a nossa combalida democracia.

A carta de Francisco – a morada comum…

A Laudato Si – sobre o cuidado da casa comum, a carta de Francisco, pode ser também considerada uma “carta extraviada”, uma vez que tanto a mensagem original de São Francisco, lançada há oito séculos atrás, quanto sua versão atualizada pelo Papa Francisco ainda não foram “recebidas” e “acolhidas” pelo conjunto da humanidade e, portanto, ainda não “informaram” nem “sensibilizaram” as instâncias decisórias que imprimem ao mundo o insensato, ou mesmo suicida, modo de vida em curso no planeta.

Entre os estudiosos das ciências da Terra (Climatologia, geofísica, oceanografia, bioquímica e ecologia) é amplamente majoritário o campo daqueles que afirmam que as mudanças climáticas, o aquecimento global e as extinções em massa da fauna e da flora são frutos dos impactos das ações humanas.  São filhos da descontrolada máquina de morte que vem devastando toda a Terra – na medida em que o modelo humano de organização, produção e reprodução da vida, sistemática e progressivamente, envenenam os solos, enchem de pestilência os ares, contaminam as águas e escravizam, na pobreza, na miséria e na indignidade, parcela substantiva da humanidade.

Quando, no campo das possibilidades iminentes, se coloca o colapso das condições de vida no planeta, a hora é de suspender o sentido hegemônico, “evocando uma nova época, uma nova e originária iluminação poética do sentido do real, e por dom do diálogo” (segunda orelha) (4), reinventar o sopro que anima todas as coisas e atravessar a miragem sistêmica que conduz o planeta para a morte.

Para avançar de forma qualificada nesta questão, dois termos antagônicos e relativamente novos se impõem – Gaia e Antropoceno .O primeiro representa o princípio vida – a inteligência amorosa que cria, mantém e oferta as condições ótimas para sustentar a máxima biodiversidade na biosfera e o segundo o seu contrário que representa o modelo de produção e consumo que agride os ecossistemas, ameaça a capacidade regenerativa do planeta e, portanto, seu equilíbrio ecológico a tal ponto de ser considerado, devido ao impacto das alterações provocadas, uma época ou ainda uma era geológica – fruto do delírio, da presunção, da insensatez e da agressão humanos.

Como no exemplo da carta de Nhorinhá, também aqui nos encontramos no reino da linguagem e na legibilidade tardia da mensagem de Francisco, de um enredo orientado para a morte, das virtualidades/possibilidades poéticas iminentes a configurar o destino e o real, da imposição, ao pensamento, do tempo lento da era geológica e ainda de uma carta e de uma originária história de amor – a história de Gaia e do nascimento e sustentação da vida no planeta. Propositadamente, não avançaremos na investigação da “Terceira Carta Extraviada”, mas apontaremos que uma questão premente a ser investigada é a velocidade alucinada dos tempos pós-modernos que, inconscientemente, avançam em direção ao abismo, e na medida mesma em que deste se aproxima, aproxima-se também, ameaçadoramente, o enredo de morte com o destino, mas… poderá haver uma possibilidade terceira? Fruto de um esforço desesperado por retroação? Sobre os meios, os medos e os fins, há mundo por vir?[iii].

Ficaremos por aqui para permitir exercitar o caráter aberto e participativo do caminhar – sua dimensão transformadora – e propomos que tal reflexão –  afeta à segunda e à terceira carta extraviadas – possa ser desenvolvida e aprofundada no processo do Caminho do Sertão, como tema gerador a orientar e fortalecer nossa travessia pessoal e coletiva, para tanto apresentamos abaixo uma bibliografia de apoio.

Borandá, minha gente!!! E uma última pergunta que não quer calar:

Acaso a carta extraviada não abolirá o Destino?!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

ROWLAND, Clara. A forma do meio: livro e narração na obra de João Guimarães Rosa · Editora da UNICAMP (Campinas). 1a. edição. 2011.

(2) MATURANA, Humberto. Emoções e linguagem na educação e na política. Tradução: José Fernando Campos Fortes. – Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998

(3) BERNARDO, Gustavo. A ficção cética.  São Paulo: Annablume, 2004.

SERRANO, Pedro. Entrevista à TV 247 https://www.youtube.com/watch?v=JQtZC0qEB_U&ab_channel=TV247 (consulta em 10.04.2018)

FERREIRA, Wilson.  www.cinegnose.blogspot.com (consulta 10.04.2018)

(4) CASTRO, Manuel Antônio (org.). Arte: corpo, mundo e terra. Editora: 7 Letras, 2009.

* citações do Grande Sertão: Veredas.

 

[i] Ecologia da ação – um dos operadores cognitivos do pensamento complexo elaborado por Edgar Morin – afirma que as ações frequentemente escapam ao controle de seus autores e produzem efeitos inesperados e às vezes até opostos aos esperados.

[ii] Terra pátria – Conceito desenvolvido por Edgar Morin e título de um livro seu. Refere-se à consciência planetária que liga os humanos entre si e à natureza terrestre. Um planeta pátria, nossa casa comum, nossa mátria. A morada comum da humanidade enquanto comunidade de destino planetária.

[iii] Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins / Déborah. Danowski, Eduardo Viveiros de Castro. – Desterro [Florianópolis]: Cultura e Barbárie: Instituto Socioambiental, 2014.

Voltar para o Blog

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *